"De que adianta ser vegetariano e não consumir orgânicos?"

Denise Kawski Porciúncula

24 de março de 2017

 É comum ouvir algumas pessoas fazendo o seguinte

questionamento “de que adianta ser vegetariano e não

consumir orgânicos?”, como forma de diminuir a importância

do vegetarianismo.

 

Primeiro é necessário esclarecer que ser vegetariano significa

não causar sofrimento aos animais, não é diretamente

relacionado a ter uma alimentação saudável ou ao não

consumo de agrotóxicos.

Segundo, como resposta direta a este questionamento, segue texto do INCA - Instituto Nacional do Câncer (Brasil),

sobre mitos e verdades:

Os benefícios da ingestão de frutas, legumes e verduras na prevenção de câncer superam os malefícios do

consumo desses alimentos com resíduos de agrotóxicos.

 

“VERDADE

Existem evidências de que os benefícios da ingestão de frutas, legumes e verduras na prevenção do câncer superam os malefícios do consumo desses alimentos com resíduos de agrotóxicos. Nos vegetais são encontradas vitaminas, minerais, fibras e fitoquímicos que previnem contra diversos tipos de câncer. Optar por alimentos de base agroecológica ou orgânicos é sempre o ideal, pois além de contribuir para a preservação do meio ambiente e para a agricultura familiar, são mais saudáveis. Entretanto, se não for possível adquiri-los, não podemos abrir mão desses alimentos protetores, pois estudos indicam que a redução no seu consumo pode aumentar consideravelmente o número de casos de câncer. Vale lembrar que os resíduos de agrotóxicos podem também estar presentes nos alimentos ultraprocessados, como biscoitos, salgadinhos, pães, cereais matinais, lasanhas, pizza e outros, que têm como ingredientes o trigo, o milho, a cana-de-açúcar e a soja, por exemplo.” (1)

 

          Complementando a resposta acima, ao consumir carnes (bovinos, suíno, peixes e outros), laticínios e ovos você pode estar consumindo mais agrotóxicos que vegetarianos que consomem alimentos não orgânicos, devido ao processo de bioacumulação. (2,7,8,9)

 

        Bioacumulação é a absorção do composto pelo organismo do meio abiótico ou biótico, podendo ou não a concentração exceder a da fonte. A posição do organismo na cadeia biológica tem importante influência sobre se a substância apresenta elevada absorção e baixa eliminação (biomagnificação), sendo que a concentração do composto aumenta ao longo da cadeia alimentar. Nem sempre é bom ser o “topo da cadeia alimentar” não é?! (4)

 

        Este fenômeno é reforçado por Koifman “a bioconcentração de organoclorados persistentes na cadeia alimentar acarreta riscos adicionais para os indivíduos que comem carne, quando comparados aos vegetarianos ” (3)

Corroborado por Servan-Schreiber (2008): “carne, derivados de leite e grandes peixes constituem mais de 90% da exposição humana a contaminantes cancerígenos (5) e por Santos et al (2008): organoclorados são altamente estáveis e lipofílicos sendo facilmente absorvidos pelo organismo  e se concentrando no tecido gorduroso. (6)

 

       Conforme as citações acima vale ressaltar que a alimentação dada aos animais não é orgânica e os ambientes aquáticos também podem estar contaminados por  agrotóxicos, desencadeado o processo de bioacumulação (2)

 

       É indiscutível que não consumir fitossanitários, vulgo venenos, é o melhor pra saúde. A questão aqui é a confirmação de que seguindo uma dieta vegetariana estrita (“vegana”), mesmo que não orgânica, os vegetais continuam a exercer seu efeito protetor à saúde. Portanto, este não é um motivo que impeça alguém de adotar o vegetarianismo.

 

OBS: As informações contidas neste artigo são para reflexão, abordando apenas uma face do problema.

Sabe-se que o câncer é uma doença de etiologia multifatorial, podendo ter origem na combinação de vários fatores – genéticos, ambientais e de modos de vida, como tabagismo, inatividade física, alimentação inadequada, excesso de peso, consumo excessivo de álcool, exposição a radiações ionizantes e a agentes infecciosos específicos: aflatoxinas, entre outros.


 

Referências

  1. Mitos e verdades. INCA. Disponível em http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/cancer/site/prevencao-fatores-de-risco/alimentacao/mitos-verdades

  2. Gomes A P D et al. Análise da carga contaminante de agrotóxicos e bactérias em peixes da represa de Furnas. Moreira Junior, 2009. Disponível em http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?fase=r003&id_materia=4471

  3. Koifman S, Hatagima A. EXPOSIÇÃO AOS AGROTÓXICOS E CÂNCER AMBIENTAL. Disponível em https://portal.fiocruz.br/sites/portal.fiocruz.br/files/documentos/cap_04_veneno_ou_remedio.pdf

  4. Amato C D, et al. DDT (DICLORO DIFENIL TRICLOROETANO): TOXICIDADE E CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL ¾UMA REVISÃO. Quím. Nova vol.25 no.6 São Paulo Nov./ dec. 2002

  5. Schreiber D S. Anticâncer. Editora Fontanar, 2008.

  6. Santos S S et al. EXPOSIÇÃO A SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS E CÂNCER: ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS, GENÉTICOS E MOLECULARES. CAD. SAÚDE COLET ., RIO DE JANEIRO, 16 (4): 613 - 658, 2008. Disponível em http://www.cadernos.iesc.ufrj.br/cadernos/images/csc/2008_4/artigos/SE_2_2008-4_Sabrina.pdf

  7. Doréa J G. Vegetarian diets and exposure to organochlorine pollutants, lead, and mercury.American Society for Clinical Nutrition, 2004.

  8. Mead N M. Contaminants in Human Milk: Weighing the Risks against the Benefits of Breastfeeding.Environ Health Perspect. 2008 Oct; 116(10): A426–A434

  9. Massart F et al. Chemical Biomarkers of Human Breast Milk Pollution. Biomarker Insights 2008:3 159–169

Fonte imagem: http://www.peta.org/

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